quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Jardins

Foi por teus olhos que tentei entrar e conhecer teu mundo. A braçadas mergulhei. E por mais que eu me esforçasse, tão perto fiquei da superfície. O fato é que ali eu conseguia ver tanto de ti. Em pitadas você me mostrava cada centímetro do teu passado, como se fosse um rolo de imagens a passar num cinema antigo. E como uma diretora de primeira, você fazia os cortes quando necessário, como se dissesse “assistimos essa parte depois, vamos para a próxima”. Só me restava pegar um punhado de pipoca e permanecer como espectador.
Troquei a pipoca por teus dedos, depois a mão inteira. Amarrei minha mão na tua achando que tantos anos sendo escoteiro finalmente me serviram de algo. Fiquei com medo dos nós desatarem e colei meus lábios nos teus. Colado assim, te vi de pertinho. Imaginei por vezes que você, de alguma forma, seria alguma aprendiz de um mago, pois vi com meus próprios olhos você transformar um deck em um enorme colchão, e o céu noturno numa pintura digna de ser exposta no museu. Também vi você fazer com que meu abraço desse 78 voltas em torno de ti e por alguns instantes eu virei sua casa. Apesar de não parecer seu quarto ficou em mim. E todas as lágrimas que um dia vc derrubou em meu peito regaram um jardim  no meu coração. Não a princípio. No começo era uma enchente, mas se me lembro bem, depois da enchente o amor permanece e as ruas se tornam mais brilhantes. Me tornei cidade. E tua enchente fez minhas ruas brilharem.  E essa é  a parte que lhe digo que você marcou em mim. Te carrego comigo, mesmo que tu não saibas, fluindo em minhas ruas, regando meus jardins.

sábado, 29 de novembro de 2014

138km e um gostar moderno.

Era noite onde ele estava. E o mesmo sol se pôs para ela. Não se viram. Não se sentiram. Não se cheiraram. Mas sabiam exatamente o gosto que cada um tinha. As palavras que saiam dos dedos dele beijavam as que saiam dos dedos dela. Cada foto que trocavam se transformavam em espirais de arte abstrata até que, tudo que restava aos olhos, eram os dois em um plano só. Em seus pensamentos dançavam como ventos que se encontram, como ying e yang, mas nesse caso se tratava de ying e ying, por tamanha afinidade. Mandavam abraços e beijos pela janela. E todos os dias dormiam de janelas abertas, esperando que tais afagos percorressem os 138 kilômetros e fossem de encontro a cada um dos dois. Apostavam corrida com o sol para dar bom dia um ao outro. O brilho daquela tela podia não ser tão forte como o sol, mas aquecia o coração da mesma forma. E conforme o coração aquecia, o gelo se quebrava, a distância diminuia, as duas noites se tornavam uma só, e os 138 km , agora eram 138 maneiras de se gostar. Ela ainda era ela. Ele era ele. Só que agora eram 138 vezes mais parecidos com um só.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Cinema Mudo

Sei que o tempo voa e que posso estar perdendo o meu ao te esperar. Mas vê, se eu fico em silêncio, é na tentativa de torcer o universo a ponto de fazer com que ele me coloque no seu caminho. E se você ficar em silêncio sei que pode ouvir um som, quase um sopro. É o som do meu coração batendo por ti. Um dia pode ser que você me diga para que eu vá até ti. Você saberá então o que fazer, e irá dizer todas as coisas que eu sempre quis ouvir. Direi que estarei contigo por onde estiver. E que continuarei a enxergar teu rosto, mas não ouvirei tua voz. Estarei nos teus dias, nas cores, nos sons, nas construções ao teu redor. Haverá sempre um lugar pra mim ali. Mas não aprendi a chegar em seu mundo e por isso não tenho certeza de que você é o que preciso. De tudo que já foi nosso, só restou um envelope que me admira ser tão leve, pela carga que carrega. Não recuperei a aflição em meu peito, mas conquistei a paz de espírito.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Azul

Um dia vou segurar suas mãos e o rio irá fluir. A flora de sentimentos se renovará e não haverá céu tão azul como o deste dia. Com os braços abertos, correrá em minha direção, e aquele abraço há muito mantido preso e aguardado, acontecerá. O abraço vai esconder o chão de nós e então voaremos por entre as estrelas. Você sabe que elas não estão tão longe assim. Faremos dessa fantasia nosso mundo, e caso perceba que é um sonho, não me acorde. Estará tudo como sempre teve de estar. A liberdade que ansiávamos conhecer, agora está ao nosso alcance e em breve estaremos livres. Tudo ficará claro. Não seria a vida por si só, um sonho?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Papéis amarelados

Não há mais rasuras em meu caderno, todavia sobram-lhe espaços. Já não tenho ânsia da escrita e aquela euforia mental já não me ocorre mais. Fechar os olhos e deixar que meus dedos guiem-se por letras é insuficiente para que se traduza o que sinto. Sendo assim, a ausência da escrita reflete minha falta de alegria, de tristeza, de entusiasmo, de fogo, paixão, invernos, guardas-chuva, brisa, lua, mar, orvalho, inclusive decepções. São estes os pequenos ingredientes que nos permitem criar coisas belas. Como um cozinheiro precisa de ingredientes para o prato principal, a vida também clama por coisas sutis, mas que dão todo um sabor para o viver.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Quando eu puder te encontrar

Não sei onde está agora. Não sei o que está fazendo e nem mesmo sei se ainda vive. Sei que o mesmo sol que brilha para mim brilha para você. O mesmo vento que uiva em minha janela, toca teu rosto. A mesma lua que se esconde atrás das nuvens para mim, esbanja luz na sua noite. E mesmo tão pertos, a cada dia nos distanciamos mais.
Escolhi viver contigo nas memórias de sorrisos, de conversas ao telefone, de noites infinitas sob uma árvore. Escolhi incinerar as más memórias e delas não guardo nada. As memórias boas, essas sim, reprisam-se em minha mente sem pausa, mas a cada dia fragmentam-se mais. Talvez isso sustente a esperança de um dia esbarrar com você numa rua qualquer. O tempo vai passar, como já tem passado demais.
E após todo esse tempo, não há um dia sequer que eu me segure para não te mandar outra carta, não há um dia sequer que eu prenda minha vontade de estar com você. Apesar de nossos corpos nunca terem se tocado, era impossível distinguir minha alma da sua. Minhas memórias pouco a pouco vão se esvair. Sei que chegará um dia que duvidarei do que de fato aconteceu. Mas até lá, eu sigo como um girassol. Da mesma forma que essa flor fica tonta ao seguir o sol, eu continuo em círculos a procurar-te.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Olhar ou reparar.

Olhando a gente nem sempre vê.
Mas se de repente se pegar pisando em nuvens, é sinal de que seus olhos repararam em alguém.
É ai que o coração, mesmo acanhado, ensaia alguns passos para poder dançar, mesmo que o único parceiro de dança no momento, for um guarda-chuva.