sábado, 29 de outubro de 2011

O artesão

Um jovem certa vez viu um senhor ornamentar uma escultura. Tão bela era essa obra, que chamou a atenção do jovem e o fez ficar estático, admirando o objeto tomar forma. Fora cortado, lixado, as farpas arrancadas, de forma que permitia correr os dedos sem fura-los com pontas. Tamanha era a habilidade deste senhor, que poderia trabalhar naquilo de olhos vendados. O jovem aproximou-se e perguntou aonde o senhor tinha aprendido aquela arte. O senhor sorriu, e lhe disse que aquela peça já era muito velha, que a vida tinha sido uma ótima professora e que toda aquela suposta perfeição era resultado de erros e acertos. Ao terminar de acertar a peça, o senhor a colocou a disposição para que todos pudessem ver novamente. Muitos sabiam manusear a peça, e tinham um enorme cuidado. Outros a deixavam cair, manuseavam de qualquer forma, e por tanto tempo exposta a peça desgastava-se novamente. O jovem então, resolveu que iria fazer uma. Pediu ajuda ao senhor, e juntos fizeram uma outra peça. Essa era de metal, para que fosse mais difícil de se quebrar e acabou por brilhar após tanto lustre. Quando perguntado pelo senhor, o que faria com a peça, o jovem respondeu que iria guarda-la com muito cuidado, pois era demasiada bonita para ficar a mostra. O senhor sorriu novamente, e voltou para sua oficina.

O tempo foi passando, e o jovem se envaidecia por ter uma peça linda, bem trabalhada, digna de muita admiração, mas vista por ninguém. Permanecia selada dentro de uma caixa, a qual ele espionava de tempos em tempos para ter certeza que ali permanecia. Avistou o senhor colocar a peça, novamente restaurada, para que os outros a vissem, e perguntou a ele o porquê de trabalhar em algo tão bonito se deixava que os outros o quebrassem com o tempo. O senhor pensou por alguns minutos, e respondeu ao jovem: “Seu coração é belo por que bate. Bate ao sentir alegria, bate ao sentir tristeza, bate por você e até mesmo por outra pessoa. Mas ao bater, ele se desgasta, e ai você acha que ele está quebrado, destruído. Mas é só acalma-lo e verá que por tanto desgaste, você o tornou mais forte e resistente. Ao guarda-lo em uma caixa, ele permanecerá bonito, mas não é esse o propósito dele. Ele veio para pulsar. É isso que está fazendo com sua peça. Ela veio para brilhar e ser admirada, talvez a quebrem, mas ai você a conserta, mais forte, como eu tenho feito”.

A partir daquele dia, a peça do jovem brilhou mais, agora que não estava mais em uma caixa escura. Estava exposta, brilhando, proporcionando vislumbre e felicidade aos olhos de quem a via, mesmo que por vezes a deixassem cair.

Nenhum comentário:

Postar um comentário